Sexta-feira, Novembro 11, 2011

Notas sobre o processo:

Minha vida se confunde com a de meus personagens a tal ponto que, às vezes, somos distintos; às vezes, simplesmente somos. 


Interfiro em suas vidas, como é de se esperar de um autor, mas o mais assustador (e fantástico) é que eles intereferem na minha em maior - maior - proporção. Chegam a prever, antecipar acontecimentos - na minha vida - no mundo real, tátil, sensorial, captalista, cético, agnóstico, católico apostólico romano, em que vivemos.

Tenho dúvidas se são eles marionetas de mim ou então eu, marioneta deles. E quando acabar? O que será que acabará? No que terão se tornado? Que história terão contato? Quem serei? Não sei.

E é delicioso não saber.

Silêncio e Gozo

Que haja a música e que nasça o verbo. Que se encontre o olhar e que - a tudo - o silêncio acolha. E já sem mais, que se faça o gozo!

Segunda-feira, Agosto 22, 2011

Bonjour



Hoje sonhei com correspondências entre nós.

No sonho eu lia um livro, dois contos escritos na infância e juventude de Nietzsche. Ler o livro misturava-se com viver os contos e eu ora era eu lendo um livro, ora era uma das personagens dos contos, 3 irmãos correndo pelos suburbios de Paris.

Acordei com as costas doendo, abri os olhos e vi a mesa de centro da sala em um ângulo de 90 graus. Dormi no sofá da sala e acordei sem noção alguma da realidade, mais dentro do meu sonho do que da segunda-feira.

Foi quase lógico acreditar que acordara em Paris.

No sonho, um ótimo paralelo:  Nietzsche lembrando memórias do seu tempo de juventude com amigos no Rio de Janeiro. Personalidades de várias épocas da primeira metade do último século cantavam bossa-nova com sotaque do estrangeiro. Fez todo sentido, nada combina mais com um café da manhã em Paris do que um final de tarde no Rio de Janeiro.

Ainda ébria de sono, levantei, repassanto na mente as imagens de meu Nietzsche inventado e seus irmãos em pernas de pau numa caravana de circo. E me dei conta de que era segunda-feira e eu não tinha compromissos: poderia sair e tomar café e andar a pé e desbravar as ruas do meu inconsciênte. Poderia, enfim, me permitir a loucura da minha brincadeira de faz de conta -  e fazer de conta que, hoje, acordara em Paris.

Bonjour.



Bibiana Xausa Bosak
22 de agosto de 2011
Porto Alegre

Terça-feira, Abril 26, 2011

A Casa Dos Guardanapos de Pano



Um andar. Um andar só. Não, mentira minha, um andar e meio, contando aquela escada vazada e sem corrimão que levava pro quarto do tio mais novo. Aquele cômodo sempre foi o mais misterioso pra mim, tinha um certo algo de quarto proibido no ar.



A entrada era pela garagem. Logo em frente, um móvel com um espelho de  formato estranho e uma gaveta. Em frente ao espelho, uma mesa grande, eu acho, uma mesa onde tenho uma foto sentada no dia do casamento da minha madrinha. À direita da porta, os janelões que levavam ao pátio, ao grande pátio e, no pátio, o cachorro. 
O cachorro era um  dálmata com o rosto todo branco. Diz meu tio que isso é uma virtude em dálmatas, que manchas nos olhos são como defeitos para a raça. Não sei, só sei que não era um cachorro com olho de pirata. Diz meu tio, também, que era um tipo especial, bisneto de um dálmata campeão de uma criadora lá do Rio de Janeiro que diz que tinha criado um tipo especial de "dálmatas quadrados". Diz que até em livro tem o nome da família do cachorro. Quanta coisa... e eu que achava que cachorros eram só cachorros. Não lembro muito bem dos detalhes. Conta minha mãe que ele se levava para passear e que, ao voltar, batia com o rabo 3 vezes na porta.  



Um dia, o Tony sumiu. Minha família acha que ele foi roubado, sequestro canino, mas tudo isso eu não sei. Tudo que sei é do sentimento que eu tinha pelo cachorro. Ele era o meu melhor amigo na casa, meu fiel escudeiro contra os leões que moravam embaixo da mesa de jantar e meu comparsa em todas as minhas tentativas frustradas de pular o muro que dividia o pátio com, acho, a área de serviço. Lembro-me de brincar de cavalgar no Tony, lembro que ele era gigante perto da minha pequeneza infantil, isso é o que mais me lembro. E creio que me lembro que nos divertíamos muito, ele e eu, a brincar ao lado do grande banco de madeira que ficava à sombra do quarto do tio mais novo. O que mais me lembro do Tony é esse sentimento de amor velho que ainda guardo, assim, quase que perdido, no fundo do baú mais antigo do meu peito.  



À frente da porta, onde ficavam o espelho estranho e a mesa na foto, um hall que levava a sala de TV e a sala de jantar. Lembro-me pouco da sala de TV, a disposição dos móveis, o sofá que fazia frente a lareira e a cadeira do avô, o lugar nobre da sala, fazendo frente a TV. Lembro-me pouco da Sala de TV, mas lembro-me perfeitamente da sensação que tinha quando brincava de caminhar no encosto do sofá; lembro-me direitinho da visão dos meus pés e do esforço para manter o equilíbrio; lembro-me da adrenalina de pensar que o sofá poderia virar e da graça que achava do medo que a avó tinha de que eu caísse.
Na sala de jantar, um leão. Ou o que eu adorava fantasiar que fosse um leão. Uma mesa grande, 6 lugares, de madeira escura e cadeiras que eu precisava escalar para conseguir sentar e, embaixo da mesa, o leão. Quatro gigantes patas de leão sustentavam a mesa: e as minhas fantasias. 



Cruzando a sala de jantar se chegava a copa, era uma casa do tempo em que as casas ainda tinham copa e, passada a copa, entrava-se na cozinha, que era fina e comprida. Sobre a copa não tenho muito a dizer, só que ela tinha gosto de pão com manteiga e mel. Pão com manteiga e mel que a Teresa fazia. Tereza era a negra que tinha sido criada pela minha bisa enquanto minha avó, menina de sociedade, tinha sido criada em um internato. Depois de velha, Tereza tinha ajudado a minha vó a criar seus filhos e, depois de ainda mais velha, estava ajudando a filha da minha avó a me criar; a cozinha era interessante, bem fina e bem comprida tinha um monte de fogões que nem me lembro bem. O que me lembro bem da cozinha era que tinha uns canos, canos compridos e de comprimentos diferentes na parede a direita da porta, parecia uma miniatura daqueles órgãos de igreja. Eram as campainhas. Cada cômodo tinha a sua campainha.



*    *    *



E tudo na casa me era absolutamente natural. Fantasticamente natural. A mesa com patas de leão, o cesto de ovos em forma de galinha na copa, o órgão na cozinha que servia como campainha. O avô. A avó.



Passou-se o tempo. Primeiro, foi-se embora a casa: grande, imponente e acolhedora, no alto daquele morro que me doía as pernas de subir; mais tarde, já em um apartamento, também alto e em um morro, veio o computador. Computador melhor que o da minha casa. O computador melhor que eu já tinha visto. O computador que ficava no escritório do avô. E, depois, foi-se embora o avô. Na sequência, foi-se embora o apartamento e, com ele, a biblioteca do avô.



Idos a casa, o avô, o apartamento, a biblioteca, ficou-me a avó. Me pareço muito com a avó. Dela, “aprendi a herdar” o paladar. Se da negra, que depois de ainda mais velha tinha ajudado a filha da avó a me criar, aprendi o gosto por pão com manteiga e mel, da avó, guardei o gosto por pêras e sopas. Gosto de sopas independente da temperatura, mesmo no verão, gosto de sopas.



E tudo na casa me era absolutamente natural. Fantasticamente natural. Levou-me bastante tempo: foi-se embora a casa, a negra, o avô, o apartamento, a biblioteca e o computador. E foi preciso que ficasse só a avó, as pêras e as sopas, para que todo o universo que conheci dentro das paredes daquela casa me parecesse menos natural. Era fantástica, eu mal sabia. 



* * *



Notas sobre o avô:  



Como me dói não ter convivido mais com o avô. Olhando assim, para a foto que a minha mãe mandou fazer dele para toda a família, sinto uma ternura tão grande e, ao mesmo tempo, um grande pesar. Um pesar de não tê-lo comigo, um pesar de não ter suas opiniões para venerar ou, ainda, aquela aura de reverência que tinha o cruzar da porta para o gabinete.



Nunca mais vi gabinetes. Hoje os prédios têm paredes de gesso e chamam de escritório aquele pequeno vão que sobra entre o lavabo e o corredor, onde mal cabe um laptop. O do avô não, o do avô era um cômodo inteiro, ainda maior que qualquer outro cômodo da casa. O avô nunca era só o avô: era um avô; um par de óculos daqueles de armações grossas dos anos 60; uma biblioteca; uma poltrona e um cálice de vinho no braço da poltrona; um cigarro  e, depois da década de 50, uma televisão.



Lembro-me da TV retrô da sala de estar e das histórias que minha mãe contava sobre como cada filho tinha um dia seu da semana para escolher o que ver na TV. Conta ela que o dia dela era o sábado, mas, aos sábados, o avô estava em casa, logo, ela não tinha dia da TV. Já nos anos 90 meu avô comprou uma TV muito moderna: tinha duas caixas de som retangulares que saiam das laterais da tela, assim como duas orelhas. Ainda está aqui a TV, na casa dos guardanapos de pano versão 3.0, o apartamento da avó. Lembro-me exatamente do dia em que a TV chegou, o primeiro dia em que vimos a TV, uma das raras vezes em que o avô permitiu que meu pai entrasse no gabinete. Ficamos nós três lá, embasbacados com o brinquedo novo do avô. A TV e o avô passavam os dias a conversar. Como ele teria gostado de conhecer McLuhan. 



Se ao meu pai não eram dadas muitas vindas ao santuário-biblioteca-gabinete do avô, a mim a história era diferente: cheia da inocência infantil dos idos dos 6 anos, desconsiderava as regras veladas e entrava no gabinete a qualquer momento, de qualquer maneira, correndo a pular e colocar os pés nas poltronas de couro do avô. Para o formalismo silencioso que pairava do no ar da residência: heresia. Para mim, a risada gostosa do avô divertindo-se com o descumprir de suas próprias regras. Coisa boa ainda lembrar do riso do avô. Acho que consigo reproduzir. Acho que meu riso se parece com o dele.



O avô era Doutor. Professor Doutor, como nos divertimos ao lembrar no último natal. Virou até nome de praça. Era jurista, e a referência em ciência política no estado, mas, se me perguntassem, meu avô era a versão gaúcha de Vinícius de Morais. Acho que são os óculos e o nariz dele que me fazem pensar assim. Minha mãe conta histórias de que, na praia, ele batucava sambas em caixinhas de fósforos. Ora, se isso não é digno de um garoto de Ipanema?  



Lembro-me de um diálogo lá pelos 8 anos quando, morrendo de medo de decepcionar o avô, liguei para dizer que não queria mais ser advogada. Estava a me desculpar, meu mais novo sonho era ser diplomata. O avô, claro, achou muito graça. Também achou graça quando mais nova, lá pelos 6 anos, me informaram solenemente que ele iria fazer uma cirurgia no coração e eu, ajoelhada a sua frente na sala estranha que ficava em frente a sala de jantar, não hesitei: sugeri que ele aproveitasse para fazer uma plástica e tirar um pouco da barriga que já ia bem grande. Ele, claro, caiu em riso e me disse que achava essa uma boa idéia. Acho que ele achava graça de mim, acho que eu o divertia.



A última lembrança que tenho do avô é do ano de 99, exato um ano depois da sua morte. Minha mãe sentada no chão, escorada no armário do nosso escritório, chorando a ausência dele. Não me lembro de ter chorado a sua ausência, mas isso não quer dizer que não a sinta. Em cada curva do caminho queria tê-lo comigo, a achar graça dos meus dilemas.
Vô, sinto falta da tua ternura. 



* * *



Notas sobre a avó:  



A avó tem cabelos curtos, usa-os claros, quase loiros. Hoje, pintados. Tem sempre as unhas feitas, usa-as claras, sempre discretas. É uma pessoa curiosa a avó, sempre vistosa, ao mesmo tempo, muito discreta.

Uma vez fui com minha irmã ao cinema, era um filme sobre a rainha da Inglaterra, mas bem que poderia ser um filme sobre a minha avó. Elas usam a mesma sineta, um pequeno sino sempre ao alcance das mãos, para chamar os empregados da casa. Imagine só, minha avó e a rainha da Inglaterra dividem uma sineta! Que mundo curioso. Ao sair do cinema, encantadas, comentamos: concluímos que éramos netas da rainha da Inglaterra.



Essa é a avó. Clara, nobre, filha de aristocratas do passado, ela e os guardanapos de pano. Mas, assim como as pêras e as sopas, de uma simplicidade encantadora. É doce, é suave, é apaixonante. 



* * *



Enquanto escrevo, a avó, já com cabelos brancos disfarçados pela tinta, dá aula. Fala de ciência e de filosofia a uma turma em uma faculdade. A avó é psicóloga e filósofa desde o tempo em que, aqui por estes trópicos, as mulheres nem trabalhavam, nem pensavam, nem ensinavam fora das paredes de suas casas. Mas a avó já pensava, já bem longe de casa, a avó pensava.



E esse é o fantástico por trás do normal. O fantástico que me levou anos para descobrir. Imaginem vocês que, tendo nascida neta da rainha da Inglaterra que dá aulas de filosofia e do meu Vinícius de Moraes particular, com acesso livre ao seu ao gabinete, eu, por tanto tempo, só me ative ao leões que se escondiam embaixo da mesa de jantar. 


* * *

Com todo o amor do mundo, este texto é dedicado a Izar e Leônidas Xausa, a avó e o avô. 

Dedico-o também aos Xausa e ao prazer de todos os Natais em família. 

À minha mãe, Maria Regina Xausa e à minha irmã, Vitória Xausa Bosak, por serem tudo. 

E, é claro, à amável, talentosa e generosa Clarissa Motta Nunes - www.clarissamn.art.br - que me presenteou com a escolha do meu texto como tema para sua exposição.

Com muito amor a todos, 

Bibiana Xausa Bosak 


Domingo, Abril 03, 2011

Achados de Milano

Pouco a pouco vou chegando na cidade, vou sabendo onde ir, vou construindo minhas rotinas. #acheidepilaçãobrasileira

Domingo, Fevereiro 20, 2011

Corsica II & III

***
Corsica II

"We fought, we loved,
we won, we lost"
Léria




O dia ontem foi incrivelmente longo. Léria e o namorado me buscaram na cidade (com algum atraso por causa da neve na estrada para as montanhas) perto das 9 horas. Não paramos de conversar e fazer coisas até às 2 da manhã. Incrível, surpreendente, familiar, confortável. Um sentimento muito grande de "propriedade" e de pertencimento. 

Fizemos das coisas mais prosaicas às mais profundas. Fomos no super comprar bolo porque era aniversário da Léria, fizemos compras na rua, conversamos sem parar. A Léria, como eu já sabia, tem um engajamento político muito forte em relação à Africa, conversamos muito sobre isso, as questões sociais, colonialistas, culturais, etc, etc, etc. O namorado dela é formado em Arqueologia Egípcia e tem mestrado em história do oriente-médio e do leste-mediterrâneo, mas hoje ele quer construir carreira como ambientalista e documentarista ambiental. A Léria é formada em Literatura Clássica e Filosofia com mestrado em diplomacia e relações internacionais com dissertação sobre o potencial de desenvolvimento econômico da Africa. Expostos os currículos, dá pra imaginar como foram as nossas "conversas de bar". 


Mas o mais legal disso tudo é que, ao mesmo tempo em que falamos sobre coisas serríssimas e discutimos assuntos mega profundos (com algumas tentativas frustradas de tentar descobrir a fórmula para a paz mundial), também falamos todo o tipo de besteiras (tendo dedicado horas para Harry Potter, diga-se). Tudo com a intimidade de amigas de infância, me mostrando que os 5 anos que passamos sem nos ver parecem não ter tido nenhuma importância se não para tornar a saudade e a relevância do encontro maiores.

Aprendi coisas incríveis sobre a Corsica também. Aprendi como o sistema francês de divisão do patromônio de herança em cotas iguais entre os irmãos acabou com a aristocracia corsa (mesma coisa do Brasil, faz-se nota); aprendi que a ilha já foi um país independente, depois pertenceu à Gênova (antes da unificação italiana), depois a Inglaterra e, finalmente, a França; hoje é francesa e as placas são escritas em francês e em córsico, que é um dialéto italiano. Os nativos, muito bairristas, pixaram todos os ditos em francês, deixando somente as informações em córsico visíveis.

Também aprendi que "vendetta" é uma palavra corsa que denomina a ação de vingança específica que se dá em caso de quebra do código de honra próprio da ilha, que serve como uma lei oral. A Léria disse que está acontecendo uma vendetta em uma vila próxima a dela e que ela conhece pessoas que sabem que estão marcadas para morrer. Tudo isso me soa extremamente hollywoodiano, mas arte ou vida, quem imita quem?

De noite juntou-se a nós uma amiga da Léria chamada Jaki, australiana, trabalha com produção de rtvc específicamente pra produções fotográficas na BBDO de Londres. Jaki é tão loira que quando a vi pela primeira vez quis colocar os óculos escuros. 2 metros de altura e pernas expostas em uma mini-micro-saia - mesmo fazendo 0º lá fora....

Mas, apesar da gritante cara de vagabunda, a menina se provou uma caixinha de surpresas positivas, cheia de histórias interessantíssimas e opiniões muito sagazes. Uma coisa achei interessante: estavamos conversando sobre uma situação que aconteceu com a Léria onde ela se viu obrigada a impor respeito em relação a um senhor que tem relações com a família e estava passando dos limites. Trocavamos opiniões a respeito e Jaki foi categória e absolutamente acertiva em sua análise e conselhos sobre como lidar com a situação, me fazendo perceber que, mesmo que a primeira vista tenhamos a impressão de que as gostosonaszérrimas são facilmente influenciáveis e também (desculpem a franqueza) facilmente comíveis, elas, exatamente pelo assédio fortíssimo que devem sofrer, são em verdade as que melhor sabem lidar com estas situações e impor seus limites frente aos homens: acho que temos todas muito a aprender com elas.

De noite, sonhei com discos voadores e cachorros falantes... 

***

Corsica III

Não sei bem o que escrever.

Acabo de ter uma conversa com um tripulante português e as palavras me soam na mente em português de Portugal. Estou mais uma vez no barco, retornando para Milão. Ví, vivi e se senti tantas coisas que acho que demoraria um mês em retiro somente para absorver este último final de semana. A maior das coisas, com certeza, foi reencontrar uma alma amiga, uma alma irmã, uma irmã. 



Quando nos despedimos no aeroporto a mãe dela, Francine, disse: everybody loves Bibi"e acho que isto marca também o início do meu reencontro comigo. Me sinto incrível, acho que não há muito mais como descrever.

Desde a primeira vez na ferry, na viagem de ida, pensei que não é mal o trabalho de ser tripulação. E então e lembro e me dou conta que não preciso mais ser tripulação para viver estas experiências. Já sou passageira, não preciso vender mais meu trabalho como única moeda que tenho para usufruir disto: já posso usufruir como fruto do meu trabalho. E pensar este pensamento me faz abrir sempre um sorrisão infinito e quase me leva às lágrimas. Assim como me leva as lágrimas pensar no meu reencontro com esta amiga.

Este tempo que passei na Córsica foi um período de conforto e verdade, de fazer amigos e de sentir que não preciso ser nada além do que sou para ser gostada. 




Uma frase e um pensamento de ontem ressoam fortes ainda, em um momento de troca, conversa e cumplicidade entre Léria e eu: que a vida tem me reafirmado que devo sempre agir da forma como sinto e acredito e que o tempo has proving me right more than once, paying me back in a currency I understand".

Mesmo que demorem, o pagamento, a prova, a felicidade: eles vem.

Quarta-feira, Fevereiro 16, 2011

Corsica #1





* * *

1
Desventuras Ferroviárias

E então eu ia para a Córsica. A terra natal de Napoleão. Tudo certo: eu ia pegar um trem para Livorno, chegar lá às 2:00 da manhã, esperar até às 8:00 para pegar a balsa e, finalmente, chegar em Bastia (pronuncia-se Bastía). Isso era ontem e eu ia.

E então houve uma greve no metro de Milano. E todos os taxis da cidade estavam ocupados. E então eu ia pegar o ônibus, que deveria passar às 20:30 - e não passou. E deveria passar às 20:45; e não passou - E até meu mamilos doiam de frio. E meu trem saía às 21:10 - e eu perdi. Frustração, auto-raiva e insônia eternas me acompanharam pela madrugada. 

Agora já é hoje e vou fazer o caminho mais longo da história: 5 horas de viagem de trem até Nice, mais não sei quantas até Toulon para, enfim, 10 horas de balsa noturna até Bastia. Ao todo, serão quase 24 horas, exatas 21 horas de viagem terrestre e marítima (e pela passada rápida de olhos nas  facilities do trem, as possibilidades de toilette parecem escaças). E tudo me parece divertido e aventuresco e válido.
Vou passar o aniversário de uma das minhas melhores amigas com ela. Faz quase 5 anos que não nos vemos. 

É, Napoleão... parece-me que a aventura (e a indiada) são os preços a se pagar por quem deseja conquistar o mundo.

P.S. Revolucionar a moda inventando aquecedores para os mamílos. 

***

2

Imagino que as coisas começem a dar certo. 

Consegui falar com a Léria (a amiga - passei a detestar apostos, explico isso outra hora, mas...). Ela conseguiu trocar minha passagem da balsa para a noite. Viva! Não marchei com € 50,00. Meno male. Porém... ainda não recebi confirmação da companhia. Aspettamo, aspettamo. 

" Somewhere in Adams' sleeping head
a butterfly had emerged."
Good Omens, p. 151.





" The world was bright and strange,
and he was in the middle of it"

Good Omens, p. 165.

Quociente da Felicidade

Fácil. É olhar pela janela do trem, ver que se está a 10m de um mar azul-marinho e verde-água e pensar que mesmo que minha rotina em Milano seja duríssima e desprazeirosa - o que não é nem de longe o caso - ainda assim estarei a 30€ desse mar.

Acho que esta é a grande escolha a se fazer: olhando para a vida que vivemos, a quantos dinheiros, tempos ou distâncias estamos do que nos traz paz e contentamento gratuitos?

Talvez seja este o cálculo do quociente da felicidade.

***

3
Volta ao Mundo em 80 Estações Ferroviárias  

Minha falta de sorte de ontem se prova recompensadora hoje. Como já mencionei, optei por pegar a balsa noturna, que sai de Toulon, FR. Acontece que para chegar até essa cidade, tive que pegar um trem que desce a Genova e, depois de Genova, segue norte pela costa até Ventimiglia, fronteira litorânea entre Itália e França.

Em Ventimiglia troquei de trem até Nice e, em Nice, mais um trem (de onde escrevo agora) até Toulon, 1 parada antes de Marseille. Ou seja, em 1 tacada só, por azar, ou sorte, ou acaso, ou destino, acabei fazendo toda a costa nordeste do mediterrâneo e Cote D'Azur.  
















Recomendo.

Como a frase do livro que anotei àgumas páginas atrás, é um passeio que nos tira dos nossos centros umbiguisticos e legocêntricos, relativiza, desfocaliza e refocaliza e, com caótica paz, gera o bater de asas de algumas borboletas internas.

P.S. R-r-r-r-r-r-r-r. Quero aprender francês, é delicioso falar! R-r-r-r-r-r-r. 

***

4
Pensamentos no trem para Nice

"Be what you want"

Estava escrito em uma vitrine que tirei uma foto em Milão. Essa ideia vem me acompanhando desde o texto que ia escrever sobre a 3ª profecia, mas o sentimento não tinha vindo ainda, eu sabia que estava realizando a profecia, mas ainda não havia sentido.


Mas hoje, olhando no reflexo da janela do trem nos momentos em que passava dentre os penhascos entre as praias, vi os óculos, o relógio, a calça vermelha, a câmera fotográfica, os poucos novos bens materiais dessa Bibiana; e o olhar mais profundo; e a pele mais seca; a boca mais expressiva; o sorriso por trás dos lábios. É realizada a profecia.










***

5
Corsica Ferry

Eu tô num navio!

EU-TÔ-NUM-NA-VI-O!












Eu nunca tinha estado num navio antes. Tá, Toulon é linda, super vale a visita, mas eu tô num navio! Sério, que demais!

Eu achei que eu ia pegar um barquinho e esse negócio é 2x maior que o Sheraton. Tô me sentindo uma provinciana ridícula, eu sei, tiraram a Cinderella da cozinha e esqueceram de tirar a cozinha da Cinderella... Mas eu tô me comportando bem, juro. Tô bem vestida (super bem) e minha câmera é bonita e pedi um cálice de vinho.

(Chegou o vinho, veio com bruschetas junto e deu 5 euros - 5 EUROS! e a guria ainda elogiou meus sapatos. Eu comentei que tem uma mulher tocando piano? E de calda! 





Agora ela parou e tá tocando Elvis, quando eu cheguei era Frank).

Eu me entusiasmo com todas as coisas, é verdade, até as "mais pequenas", mas as grandes são muito legais também. Vou tomar meu vinho e curtir o piano. Queria que minha família estivesse aqui: a mãe, a Toia, o pai e tudo. 

Depois eu volto. Beijos. 

Bibiana Xausa Bosak
Sobre águas mediterrâneas 
27.01.2011