quarta-feira, janeiro 20, 2010

Desabafo

***

Da mama ao olho
Do leite ao choro
Vivo de termos que só vi na tevê

Derrepente, virei um caso
Um raro acaso
De suposições
Em de-conexões
De associações

Puras
Simples
E caras

De Hemingway a Picasso
Meu moleskine virou um retrato
De demasiados contratos
Demasiadas receitas
De desencontradas suspeitas

Pareço uma viciada
A viver de tantas picadas
De pura ânsia

De sair do coma
De rasgar a lona
De virar a mesa
Me apegar a reza
E, sem mais delongas,
Acabar com a pressa.

Que me venha a calma
Que me cure o trauma.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Bar Dô

***

É tanto que explode
De novo
Explode

Em desejo
Em sexo
Em álcool

Explode em um tanto de sensações que desconheço
Que desconfio
Que afino a fino fio
De sangue.

Que me corta o corpo
E me embriaga a carne.

Gozo de amizade:
Em cena
Em mesa
Em bar
Em cama
De dama.

Da noite, o coito
Afoito
O gozo

O ser

Viver


De noites de amores, Bardô, POA, hoje, Janeiro.

Escrita sobre Escritos

***

Tem mudado muito meu processo de escrever.
Antes, era o eu quem falava.
Cheio de deslumbramento e autopiedade, o eu falava voraz sobre a imagem no espelho.
Hoje não.

Hoje escrevo como quem tira uma foto, para que o espírito do tempo presente não se perca
com o tempo passado.

Do francês oubli, esquecimentos,
passo para o português obrigação e obrigada.

Escrevo como se me fosse um dever narrar as coisas que vejo.
Escrevo sobre as coisas, todas que não são minhas,
como se os sentimentos me fossem emprestados para que eu os possa sentir e contar.

E, como quem pega uma coisa emprestada, escrevo por gratidão.
Por me ser permitido sentir e me ser concedida a nobre tarefa de contar o que sinto.

Sou mais uma ferramenta do que qualquer outra coisa:
como um desses programas de traduzir idiomas que há nos computadores,
sou mera ferramenta de contar simultâneas histórias.
Sou mera ferramenta de traduzir, para que os sentimentos não passem sozinhos e para que não acabem perdendo-se na tradução.

domingo, janeiro 17, 2010

Notas sobre Ritos de Passagem

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Da última vez que me encontrei comigo, eu era uma jovem.
Pois muito bem que estava a crescer, me organizar, me independizar. Uma jovem.

Passa-se que ontem fui a uma formatura. Não era a minha, ainda, confesso; mas vejam que curioso:
me encontrei comigo. E eu era uma adulta.
Estava lúcida, consciente de mim e dos outros e, ainda mais curioso, encontrei com muitas das pessoas que, enquanto eu crescia, eu vi crescer; e muitos também eram adultos.
Profissionais, companheiros de suas companhias, inteiros, adultos.

A parte do inteiros fica por minha conta, pois nunca se sabe, assim bem, em quantas partes alguém se divide por dentro. Mas, por fora, sorriamos, falávamos das profissões do presente e das pretensões do futuro. Pequenos adultos a germinar do solo da infância. É bonito ver um jardim crescer assim, em casamentos, formaturas, profissões e sorrisos.

Há qualquer coisa que não sei sobre ritos de passagem;
 mas hoje eu acordei e ainda era uma adulta.
Há qualquer coisa que não sei sobre ritos de passagem.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Perdão e Serenidade

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Tenho um grande amigo, uma alma irmã, como costumo dizer, que tem uma ótima frase sobre perdão.
Diz ele:
"Eu te perdoo, eu me liberto".

Assim, o perdão deixa de ser um ato que se faz em prol do outro, dando o bem a outrem, e passa a ser um ato que traz o bem a quem o realiza. Eu gosto dessa idéia.

Ontem uma coisa muito bonita aconteceu comigo: o perdão.
Pude sentir direitinho o momento em que ele veio, senti o coração se encher e os pulmões se esvaziarem.
E me senti mais leve. Um amigo querido me perguntou como me sentia e a resposta foi categórica:
Estou me sentindo magra.
E me sentia mesmo, me sentia como uma pluma, mal sentia minhas pernas tocarem-se.

Assim, fui contar a minha alma irmã do acontecido e escrever-lhe uma mensagem pelo celular. Ocorre que eu uso aquela ferramenta do celular que dá todas as possibilidades de palavras com aquela combinação de letras e, então, fui eu escrever a frase que meu amigo me ensinou e, ao escrever "perdoo", algo muito bonito aconteceu:

A primeira combinação possível para o conjunto de letras da palavra "perdoo", no celular, é "sereno".

Acho que não preciso dizer mais nada. Passamos a todo momento por situações de provação que nos exigem a rara e difícil capacidade de perdoar. É duro, é dolorido e quase como que anti-natural. Porém o resultado do perdão é simples: é sereno.

Aos que acharem que serve o chapéu, meu grande abraço, minha força para que consigam perdoar e um desejo no imperativo: libertem-se!

A Trama

Trama-se a trama de forma serena
E é só assim que se pode tramar

Os bandidos errantes
Tramando seu próximo golpe
Esquecem-se que vida
É feita de amar

A poeira do sotão
Em agudo silêncio
É gentil forasteiro
Pedindo saudade que volte

O croché da rendeira
Que trama na cama
Traz, a cada ponto
O contraponto da sorte

A palavra de corte
Do poeta boêmio
Faz arte da morte
Entre copas de vinhas

As viúvas tão tristes
E as tias sozinhas
Entre grossas linhas
Fazem, da trama
Sua fuga da vida

A moça bonita
Faz, da trama, lida
E amarra o cabelo
Com um laço de fita

Todos em fila
Tramam a trama

Esquecem, porém
Que trama-se a trama
De forma serena
E é só assim
Que se pode tramar

O ponto certeiro
É incansável guerreiro
Guarda a medida exata
Do quanto tramar
A trama da trama


Bibiana Xausa Bosak, quarta-feira 13, Janeiro, 2009

terça-feira, janeiro 12, 2010

Bonecas de Janeiro

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A inspiração é um espírito curioso, vem nos mais aleatórios momentos e não dá, assim, muita explicação.
Alguns tem a sorte de inspirações constantes, outros, engatilhada por algum elemento.
Há inspirações de todas as sortes.
A mim, inspira muito lavar o carro.
Não sei por que, deve ser algo sobre a espera pela vez, entrar naquele retangulo escuro com com grandes vassouras que giram sobre o carro, não sei, mas a mim, lavar o carro inspira-me à poesia.
Como sucedeu-se hoje. Segue aqui o resultado:


BONECAS DE JANEIRO


A maquiagem torna mais evidente o rosto da boneca.
São as marcas da pintura,
Disfarçando os vincos da vida. 


As maças, pessego, 
Trazem-lhe uma certa leveza
Quase juvenil.


A boneca de cera sorri.
Mais um dia de verão.
Vaidade e inocência
Pregam
Que o calor desumano de Janeiro
Não lhe derreta sua cera
E suas cores. 
Mesmo as bonecas
Sofrem de calor.


O vento levanta as pregas da saia
Colorindo as buchechas 
E deixando mais rubro o dia dos malandros
na praça da cidade.
Em um dia de Janeiro.

Bibiana Xausa Bosak, 12 de Janeiro de 2010